Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Num dos livros de Carl Sagan ele fornece uma metodologia para se conseguir distinguir entre ciência e a pseudociência através do pensamento cético com uma abordagem que ele chama de Kit de detecção de mentiras, em que Sagan afirma que após uma análise das suposições de uma nova ideia - questionando-a e contradizendo-a, a ideia deve permanecer plausível, e só então poderá ser reconhecida como uma suposição.
Esse autor diz ainda que pensamento cético é uma maneira de construir, entender, racionalizar e reconhecer argumentos válidos e inválidos, e prová-los de maneira independente. Carl Sagan acreditava (e eu também acredito) que a razão e a lógica devem prevalecer a favor da verdade. Além disso, sustentou também que apenas crer em uma ideia, sem uma teoria racional e lógica, não torna a ideia 'magicamente' valida.
Através desses conceitos, os benefícios do pensamento crítico e da natureza “autocorretiva” da ciência emergiriam. Afinal, os cientistas não tem problema nenhum em dizer que não há consenso sobre uma determinada teoria X ou Y. E mesmo que não haja um consenso, não impede que assuntos conflituosos sejam pesquisados. Entretanto, a visão adotada pelo pesquisador quanto ao objeto de pesquisa não deve ser visto como verdade absoluta. Uma vez que verdades absolutas não existem. Ainda mais para assuntos sem consenso.
Se você não quiser aceitar besteiras mesmo quando é reconfortante fazê-lo, há precauções que podem ser tomadas; há um método testado e aprovado por pessoas fora da academia. Listei abaixo as principais dicas de Carl Sagan para se evitar pseudociências:

1 – Sempre que possível, deve haver confirmação independente dos fatos.
2 – Estimular um debate substancial sobre as evidências por notórios partidários de TODOS os pontos de vista.
3 – Argumentos de autoridade têm pouco peso – “autoridades” cometeram erros no passado. E voltarão a cometê-los novamente no futuro. Talvez a melhor maneira de dizer isso é que na ciência não existem autoridades; no máximo, há especialistas.
4 – Elaborar mais de uma hipótese. Se há algo a ser explicado, pense em TODAS as maneiras diferentes como poderia ser explicado. Então, pense em testes pelos quais você pode refutar sistematicamente cada uma das alternativas. O que sobrevive, a hipótese que resiste à refutação nesta seleção darwiniana entre as “várias hipóteses de trabalho”, tem uma chance muito melhor de ser a resposta correta, muito melhor do que se agarrar a ideias de crenças.
5 – Tente não ser excessivamente ligado a uma hipótese só porque é sua, ou de alguém que você goste muito. Ela é apenas uma estação intermediária no caminho pela busca do conhecimento. Pergunte-se porque você gosta da ideia? Compare-a imparcialmente com as alternativas. Veja se você pode encontrar razões para rejeitá-la. Se não o fizer, outros o farão.
6 – Quantificar. Se aquilo que você está explicando tem alguma medida, alguma quantidade numérica ligada a ela, com isso você será muito mais capaz de discriminar entre hipóteses concorrentes. O que é vago e qualitativo está aberto a muitas explicações. Claro que existem verdades que devem ser buscadas nas muitas questões qualitativas que somos obrigados a enfrentar, mas encontrá-las é mais desafiador.
7 – Se há uma cadeia de argumentos, todos os elos da cadeia devem funcionar (incluindo a premissa) – e não apenas a maioria deles.
8 – Navalha de Occam. Esta conveniente regra de ouro encoraja-nos quando somos confrontados com duas hipóteses que explicam os dados igualmente bem, e então opta-se em escolher a mais simples.
9 – Sempre perguntar se a hipótese pode ser, pelo menos em princípio, FALSEADA. Proposições que não são testáveis, irrefutáveis, não valem muito. Considere a grandiosa ideia de que nosso Universo e tudo nele é apenas uma partícula elementar – um elétron, por exemplo – de um Cosmos muito maior. Mas se nunca podemos adquirir informações de fora do nosso Universo, esta ideia não é incapaz de ser refutada? Você deve ser capaz de verificar as afirmações. Aos céticos inveterados deve ser dada a oportunidade de seguir seus raciocínios, a replicar os seus experimentos e ver se eles indicam os mesmos resultados."

Penso (e isso é apenas uma opinião) que o mais crítico quanto aos adeptos de pseudociências é que, quem está imerso nela não se importa (ou em alguns casos não percebem) que se trate de, apenas mais uma forma de apresentar explicações fora da racionalidade/ ou se preferir, apresentar explicações sem de fato estar explicando coisa alguma. Igual uma religião qualquer...
Essa opinião não é sem vivencia, quer dizer, olhe para este blog, tudo aqui começou com um pé muito forte na pseudociência da consciência (ou conscienciologia, como queiram, são apenas denominações para diferenciar vertentes que querem se dissociar da imagem do Waldo Vieira, mas no fundo, é mais do mesmo). E existe uma bolha de pessoas que querem disseminar esse pensamento, usando a 'ciência' como base. Ciência, só que não. Usar a ciência conveniente. Partes daquilo que a ciência não consegue comprovar e oferecendo uma explicação pobre.
Embasar uma ideia em faláceas é a forma mais conhecida de se tratar de assuntos metafísicos. Difícil é falar de transcendentalidade usando a base científica cartesiana...
Vejamos.
Demorei a entender que eu poderia assumir para mim mesma que energias corporais (bioenergias, prana, chi e etc.) existem e que nós, seres humanos, somos afetadas por elas. Mesmo a ciência não tendo comprovando de fato, que tais energias existam, eu, enquanto pessoa dotada de um pensamento racional científico posso assumir que elas existem. E aí mora o perigo, posso assumir que elas existam, mas não posso inventar uma origem para elas! Não posso inventar uma origem, ou um destino, ou etc, pelo simples fato de não haver base factual para isso.
Dá mesma forma, também posso assumir que TALVEZ o ser humano tenha alguma transcendência do corpo físico, assumindo que talvez exista algo como uma alma. Mas ao mesmo tempo, posso negar as "viagens na maionese" que surgem a partir disso. Por exemplo, não é porque eu acredito em energias que eu tenho que assumir como verdade a existência de uma coisa chamada cordão de prata, ou corpo astral, muito menos assumir que o corpo humano tem uma alma e que existe vida após a morte, e etc...
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Já mencionei em outras postagens que, até agora a ciência não encontrou nenhuma evidencia de alma no ser humano, nem nos animais! E pesquisas andam sendo feitas aos montes nessa área. Principalmente no cérebro e nas experiencia de quase morte. Já comentei aqui alguns resultados das experiencias do dr Sam Parnia e dos estudo do Núcleo de pesquisa em espiritualidade e saúde e etc. E como diz o historiador Yuval Noah Harari no livro Homo deus, se tem uma coisa que o ser humano quer atualmente, essa coisa é vencer a morte. O ser humano já dominou os meios de produção alimentar, já aprendeu a dominar as guerras (embora ainda exista por questões de interesses particulares, mas de forma geral, foi dominada), já dominou a reprodução, o que falta? Dominar a morte. Porém, até agora NADA foi descoberto nesse ponto da transcendentalidade, pode ser que um dia uma quebra de paradigma ocorra nessa área? Pode! Mas até o momento, esse dia não chegou. Então é necessário colocar pingos nos i's e esclarecer que: PSEUDOCIÊNCIA é apenas isso... Pseudociência. Não é acadêmico. Depende da boa fé das pessoas de quererem ACREDITAR na experiencias de terceiros. A pseudociência é frequentemente caracterizada pelo uso de afirmações vagas, exageradas ou improváveis​​, uma confiança excessiva na confirmação, em vez de tentativas rigorosas de refutação, a falta de abertura para a avaliação de outros especialistas, e uma ausência generalizada de processos sistemáticos para desenvolver teorias racionais.
E por mais que em certos casos seja simulado uma 'ciência' com base na "auto-pesquisa", sabe-se que "auto-pesquisa" mal mal é aceito como pesquisa de verdade na academia, dada a facilidade do pesquisador em fazer confusão ou errar quanto ao objeto de estudo. Auto-pesquisa é uma falácea e se embasar nela não ajuda em nada essas instituições que se dizem 'acadêmicas', só que não.
Enfim...
De forma geral, como uma pessoa que assumo energias e também tendo em mente que irei morrer um dia, adoraria poder dizer com 100% de convicção: Existe vida após a morte. Ou ainda: existe energia! Mas a questão é que, na verdade o que existe são fatos, e eles não podem ser negados. Os fatos são claros. Não há evidencia alguma nem quanto energias, muito menos quanto a morte.
E, sinceramente, não quero enviesar minha experiencia de morte (que algum dia inevitavelmente irá acontecer) antes dela acontecer de fato. Se houver vida após a morte, que bom, se não houver vida após a morte que bom também. Estou pronta para os dois. Temos que estar prontos para os dois.
Também não vou passar minha vida me devotando a incertezas porque Fulano, autoridade no assunto, diz que é assim. Não tem como fulano saber, uma vez que nem a ciência sabe! Então Fulano, me desculpe, mas você não é autoridade de coisa alguma.
Então é isso.
Volto-me novamente ao mesmo ponto de partida. Tendo as bases sólidas da ciência, que foi quem trouxe a humanidade até aqui através do desenvolvimento matemático-biológico. Mantenho cada coisa em seu lugar com a unica certeza de que, o que eu realmente quero é saber, não acreditar.

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