Mãe - Pedro Chagas Freitas

Há qualquer coisa de impossível na forma que me amas, mãe.
O possível teria de exigir que parasses quando te dói,
que parasses quando o mundo, filho da puta do mundo, 
te obriga a inventares novas maneiras de me dares tudo que preciso.
O possível iria dizer-te que não, que uma só pessoa, tão pequena e tão grande como tu, 
não pode suportar todo o peso de duas vidas. 
E tu ainda estás, tão forte como só tu, 
tão impossível como só tu, 
a sorrir quando me vês de caderno na mão a dizer que sou o melhor aluno da turma.
É claro que é bom ser bom aluno, 
mas o meu maior orgulho é ser filho da mãe mais impossível do mundo.
Há qualquer coisa de genial na forma como me amas, mãe.
As pessoas não inventam o tempo como tu, 
as pessoas não conseguem entender qual é a equação que permite estar sempre onde tem de estar, 
as pessoas chegam atrasadas, as pessoas falham as responsabilidades, 
as pessoas por vezes esquecem-se do que tem de fazer. 
E tu consegues o milagre da multiplicação dos pães e dos corpos, 
estas no sitio exato onde te preciso na hora exata onde te preciso com as palavras exatas de que preciso, 
a falares-me de como é importante acreditar que sabemos tudo mesmo que seja importante acreditar que não sabemos nada, 
e eu ouço-te e percebo que o segredo da tua existência é saberes que só o amor derrota a matemática, 
e que número nenhum está a altura de quando me abraças.
Há qualquer coisa de eu todo na forma como me amas, mãe.
E quando perguntarem que idade tem a minha mãe, direi apenas que para sempre.

Texto do escrito português Pedro Chagas Freitas

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