Noite Europeia dos Investigadores

Esse ano tive o prazer de participar da Noite Europeia dos Investigadores (NEI) e pude falar um pouco do meu trabalho do mestrado. Sou formada em zootecnia e em administração e o mestrado em estatística veio da necessidade de unir essas duas áreas de atuação. No mestrado eu dei a sorte de encontrar uma professora que faz o estudo de custos da produção de bovinos da raça mertolenga, uma raça autóctone de Portugal. E pensei: "nossa que sorte! Uma pessoa que estuda exatamente as minhas duas áreas de formação, dentro do departamento de matemática"... Está sendo incrível desenvolver esse trabalho em um momento tão controverso para a bovinocultura mundial.
A gente sabe que historicamente a agropecuária esteve presente no desenvolvimento econômico da sociedade passando por inúmeras transformações, desde a questão do aprimoramento do plantio e da colheita, como também na utilização da força animal para auxiliar em determinadas tarefas e na produção de alimentos.
Dentro da produção animal e entre as espécies mais produzidas no mundo, o bovino é o animal que apresenta o maior porte, que necessita de mais alimento do ponto de vista unitário e que ocupa mais espaço na terra, cerca de um terço da terra agrária do planeta. Isso quem está dizendo não sou eu, mas a FAO (Food and Agriculture Organization, 2015).
Segundo a FAO as previsões atuais indicam que o consumo de carne em todo o mundo dobrará nos próximos 20 anos. Ainda que seja uma boa notícia em termos da segurança alimentar de milhões de pessoas, para satisfazer tal demanda a fronteira agrícola e pecuária será empurrada para áreas de maior vulnerabilidade ambiental.
Vocês devem ter acompanhado nas notícias recentemente, do incêndio que ocorreu na amazônia no mês de agosto deste ano, e ainda está acontecendo atualmente. E embora o incêndio florestal nessa época do ano tenha uma certa normalidade, a proporção que foi monitorada em agosto de 2019 foi muito mais alta quando comparada aos anos anteriores.
E para piorar, descobriu-se que fazendeiros no estado do Pará e da Amazônia, publicaram um anúncio num jornal local intitulado Folha do Progresso onde anunciavam que iriam realizar uma queimada de grandes proporções num dia específico denominado "Dia do Fogo". Essa queimada teria o objetivo de desmatar a terra para a criação de gado. Pouco dias depois, houve um aumento significativo no número de incêndios e o Ministério Público do Brasil, no dia 8 de agosto, protocolou no Ibama um ofício em que alertava para queimadas planejadas. Segundo a denúncia feita pela promotoria, as intenções do grupo era "chamar a atenção das autoridades da região para o avanço na produção que acontece em apoio ao governo" e "mostrar para o Presidente que queremos trabalhar e o único jeito é derrubando e para formar e limpar nossas pastagens é com fogo." Trazendo à tona a necessidade de discutir e repensar o atual modelo da indústria da carne.
Em Portugal, o mercado consumidor também está dividido, a Universidade de Coimbra decidiu retirar a carne de vaca do cardápio nas cantinas da Universidade, numa tentativa de ser a primeira universidade portuguesa livre de emissões de carbono até 2030. Essa atitude levou a CONFAGRI (Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal) a lançar uma nota em que "repudia o radicalismo do Reitor da Universidade", e ainda realçou dizendo que "matar o mundo rural não é a solução". Há ainda aqueles que questionam os métodos utilizados para mensurar a quantidade de CO2 produzidas pela produção, pois em alguns cálculos verifica-se que vale mais a pena exportar carne de vaca. Sendo que com isso, usa-se combustível fóssil que é muito mais poluente. Outros ainda falam que ao se falar de bovinos, esquecem-se das pastagens e dos benefícios que essas podem trazer quando bem manejadas.
É nesse contexto mundial que se encontra a bovinocultura atualmente e é nesse contexto que é inserido a problemática do meu estudo e da minha investigação.
O processo de investigação surge através da percepção de problemas de um dado setor ou área e finaliza com a sugestão de uma solução. Dentro da minha proposta, decidi trabalhar com o que é possível de fazer agora. Pensar num mundo sem a bovinocultura, para mim é meio impossível, pois venho de um país que tem mais boi do que gente. No Brasil em 2016, havia um efetivo bovino de mais de 218 milhões de cabeças, enquanto que pessoas, no mesmo ano, eram 207 milhões. Na minha perspetiva de estudo, a bovinocultura continuará existindo, porém com novas tecnologias e pautados nos estudos e nas normas ambientais. 
Ainda a FAO diz que a pecuária pode desempenhar um papel importante tanto na adaptação às alterações climáticas como para atenuar os seus efeitos sobre o bem-estar da humanidade. Para aproveitar o potencial do setor em contribuir para a atenuação e adaptação às alterações climáticas é necessário o desenvolvimento de novas tecnologias. E desenvolver novas tecnologias para a bovinocultura, passa pela necessidade de observar o modelo atual de produção e propor novas soluções para a problemática a que está inserida.

Essa é apenas a contextualização do meu mestrado, há um ano venho trabalhando e me dedicando a isso junto com meus professores. E ainda falta um longo caminho pela frente... Só espero não desistir.

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